(Des)identidades em seus privilégios

  • Laís Sousa

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Ah, a branquitude! Esse sistema tão engenhoso de manutenção de privilégios, que só o fenótipo caucasiano consegue acessar. Imagine só: você tem a estampa certa, a estética da pele clara, e de repente o mundo parece mais fácil de navegar. Mas o que acontece quando alguém resolve trocar de pele – literalmente, no sentido identitário – para acessar os benefícios destinados a quem sempre foi colocado à margem?

É engraçado, porque nunca veremos o contrário. Você não encontra pessoas negras ou indígenas tentando se passar por brancas para acessar os privilégios da branquitude. Ou até encontra, mas o fato é que elas não conseguem, afinal, o sistema é esperto o suficiente para manter a estética do poder onde ela sempre esteve: nas mãos (ou melhor, nos rostos) dos brancos.

O privilégio de não ser seguido por um segurança no shopping, de não ter sua bolsa revistada, de não ser confundido com um criminoso – esses são privilégios invisíveis para quem os possui, mas impossíveis de ignorar para quem não os tem. E é justamente essa estética da inteligência, dos maiores empregos, da presença televisiva que perpetua um ciclo de exclusão.

Vamos falar sobre um desses episódios recentes, protagonizado por Matheus, o ex-BBB de Alegrete (RS). O (des)querido, claramente um sujeito de pele alva, decidiu que ser branco não era suficiente para ele. Então, resolveu se passar por negro para ingressar no curso de engenharia no Instituto Federal Farroupilha. Ele nem tentou ser sutil, colocou preto no papel com a confiança de quem sabe que não vai dar em nada. E ele não está sozinho. Inúmeros outros ´Alegretes´ estiveram por aí, fraudando sistemas de cotas e perpetuando a injustiça. Por quê? Porque quando a Lei 12.711 de 2012 foi instituída, a criação dos comitês de identificação não foi simultânea.

O privilégio branco permitiu essa farra. Sem os comitês de autoidentificação, as universidades e institutos federais viraram um palco para os espertalhões. Mas, graças aos comitês, hoje vemos um pouco mais de justiça. Sem eles, a fraude continuaria correndo solta, e as universidades continuariam tão brancas quanto as nuvens num dia de sol. É graças a esses comitês que hoje podemos ver uma diversidade real nos cursos de medicina, engenharia e direito. É por eles que, finalmente, as universidades estão pintadas de gente.

Vale lembrar que a branquitude em desconforto sempre encontra uma maneira de manter seus privilégios, mas os comitês estão aí para dizer não. Estão aí para garantir que os direitos socialmente adquiridos sejam respeitados. Porque reparação histórica não é caridade. Porque a justiça não pode ser só uma palavra bonita, tem que ser uma realidade. E para isso, precisamos desses comitês, desses guardiões da diversidade e da igualdade contra ‘barbaridades’.

Seguimos na luta, porque enquanto a branquitude continuar a tentar fraudar o sistema, estaremos aqui para defender o que é justo. Porque, no fim das contas, a igualdade não é um privilégio, é um direito. E direitos, meus amigos, não são negociáveis.


Laís Sousa

Jornalista-marketeira-publicitária comunicando em redes sociais de segunda a sexta. Escritora e viajante nas horas cheias e extras. Deusa, louca, feiticeira com trilha sonora em alta. Leitora, dançarina e pitaqueira por esporte sorte. Vamos fugir!
@laissousa_
laissousazn@gmail.com

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