Ter uma deficiência custa caro

Pessoas com deficiências, além das dificuldades do cotidiano, ainda precisam lidar com altos gastos para conseguirem ter uma vida digna

Israel Peixoto

Tenho 25 anos e, há 25 anos também, vivencio mundo sob a perspectiva de uma pessoa com deficiência. Durante todo esse tempo, tenho estado à mercê da dicotomia do mercado em relação a pessoas como eu, já que muitos produtos não são feitos para PCD’s, e aqueles que têm este público como alvo são vendidos por preços exorbitantes. Pensando nesse contraste que é, no mínimo irônico, me veio a pergunta que dá título ao artigo.

De fato, essa não é uma questão tão simples de ser respondida, afinal, vivemos numa sociedade de capitalismo selvagem em que tudo segue uma lógica puramente mercantil. Porém, é possível apontar três fatores principais responsáveis por esse fenômeno:

1º Demanda

Todo produto feito pelo ser humano é pensado para suprir alguma necessidade ou facilitar processos do dia-a-dia. Pense na sua caixinha de leite na geladeira; antes da segunda fase da revolução industrial era difícil mante-ló conservado por tanto tempo, nisso veio a invenção da geladeira e depois a produção em massa de leite em caixinhas. A ideia deu certo porque, segundo dados recentes, 816 milhões de toneladas são produzidos anualmente. Porém, esse texto não é sobre revolução industrial ou leites em caixinhas.

As grandes empresas têm como objetivo principal produzir em larga escala, gastando mínimo para um público homogêneo. Ter uma deficiência significa estar do lado oposto dessa lista uma vez que; somos um grupo minoritário, dentro dessa minoria há uma diversidade e cada produto precisa ser pensado para atender a necessidade específica de cada indivíduo.

É fácil supor que esse sistema traz pouco lucro mesmo que seja feito em grande escala. Não é justo, mas é o que se tem sob a vigência do capital: pouco gasto, muito lucro.

2º Mão de obra escassa

Cuidadores de PCD’s qualificados são escassos e os existentes cobram muito caro. Foto: Freepik

Outro fator que implica muito sobre os preços em acessório voltados a pessoas com deficiência é a falta de mão de obra especializada. Tenebroso pensar que um objeto de seu uso diário, seja ele para comunicação ou locomoção, pode vir a precisar de reparos porque não é possível saber se vamos encontrar alguém especializado na manutenção.  Caso encontre alguém, provavelmente terá que pagar um valor significativo.

É importante ressaltar que esse problema não se aplica somente em reparos e consertos. Encontrar alguém que seja especializado em cuidados com o próprio PCD em si é difícil, seja médico, enfermeiro ou assistente, são poucos aqueles que se dispõem a estudar ou aprender a respeito dos cuidados que se deve ter com a pessoa com deficiência no seu dia a dia, por isso, aqueles que são versados nesses cuidados pedem valores altíssimos por seus serviços.

3º Impostos

A incidência de impostos no Brasil é cumulativa, e com isso, ao invés de pagar imposto uma vez, como acontece no padrão global, nós pagamos várias, a depender da especificidade do produto. Isso eleva o preço na soma final, o que pode tornar muitos produtos inacessíveis.

Uma solução seria comprar produtos nacionais, produzidos no Brasil. No entanto, os impostos também são cumulativos nos produtos nacionais, mão-de-obra cara e custo alto na aquisição de matéria-prima.

Ainda que pessoas com deficiência sejam isentas de alguns impostos, segundo o blog Deficiente Ciente, estima-se que para adquirir produtos do exterior, paga-se em média 60% de impostos somente na alfândega. Incluindo o preço bruto do produto, o valor total pode até triplicar. Junte tudo isso com a alta do dólar e a inflação do desgoverno do presidente Jair Bolsonaro, e comprar uma cadeira de rodas é quase como financiar uma casa.

Assistência do SUS

Em 5 de junho de 2002 foi instituída a Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência. Uma de suas diretrizes garante o suporte na aquisição de aparelhos que ajudem na promoção de acessibilidade como cadeira de rodas, próteses, aparelhos auditivos e etc. Porém, como no Brasil tudo é “quase perfeito”, o processo solicitação é complexo e não há prazo definido para recebimento, pode ser que seja entregue na semana que vem ou daqui a cinco anos.

Por conta de todos esses fatores, é possível dizer que a deficiência no Brasil é quase que um “artigo de luxo “. Num país de desigualdade social gritante, essas barreiras nos afastam mais e mais de uma possível equidade, reforçando e atrasando em décadas a luta contra o capacitismo.

Foto destaque: Freepik

Israel Peixoto tem 25 anos, é formado no curso técnico em Agropecuária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano. E escrever é muito além de um hobby, é uma necessidade, e no momento, paralelamente aos artigos para o Site Avoador, está desenvolvendo seu primeiro livro.

Comentários