TOD ainda é cercado por tabus e desinformação: especialista alerta para impactos nas famílias e na escola

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 25/03/2026, 03:22h

O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) ainda é um dos temas mais mal compreendidos quando o assunto é neurodesenvolvimento. Frequentemente confundido com “falta de limites” ou “má criação”, o transtorno carrega estigmas que afetam diretamente crianças, famílias e até o ambiente escolar.

Para esclarecer o tema, o Portal Incluir conversou com a escritora e neurocientista Emanoele Freitas, autora do livro Transtorno Opositivo Desafiador – Sintomas, avaliação e diagnóstico . A especialista une conhecimento técnico e vivência pessoal para lançar luz sobre um tema ainda cercado por preconceitos.

Entre a ciência e a experiência de mãe

Segundo Emanoele, a decisão de escrever sobre o TOD surgiu da própria vivência. Mãe de uma criança com o transtorno, ela relata que o desconhecimento foi, inicialmente, um dos maiores obstáculos.

“Eu preciso estudar para entender meu filho e também para me ajudar”, afirma. “Muitas vezes, o comportamento é atribuído a outras condições, como o autismo, quando, na verdade, o TOD pode ser o principal fator de impacto no desenvolvimento.”

O especialista destaca que características como dificuldade em aceitar regras, impulsividade, irritabilidade intensa e desregulação emocional vão além do comportamento típico da infância.

Julgamento social, agravamento, sofrimento familiar

Um dos pontos mais sensíveis abordados na entrevista é o julgamento social. Emanoele relata que, antes do diagnóstico, fez críticas constantes sobre sua forma de educar.

"Você não sabe cuidar do seu filho. Isso é falta de limite." Frases como essas, segundo ela, são comuns — e profundamente profundas.

O resultado, muitas vezes, é o isolamento. As famílias deixam de frequentar espaços públicos, evitam encontros sociais e passam a viver sob constante estresse emocional.

Diagnóstico correto muda tudo

O especialista enfatiza que o diagnóstico adequado é determinante para o tratamento. Isso inclui avaliação clínica, análise comportamental e, em alguns casos, exames específicos para investigar possíveis alterações neuroquímicas.

“Quando tratamos a causa e não apenas o sintoma, o resultado é completamente diferente”, explica.

Ela também destaca a importância da Análise do Comportamento Aplicado (ABA), especialmente no manejo de comportamentos desafiadores e no suporte às famílias.

O papel central da família

Um dos principais alertas de Emanoele é que o tratamento não deve focar apenas na criança. O chamado “treinamento parental” é fundamental.

"A criança passa uma hora na terapia, mas o restante do tempo está com a família. Se os pais não estiverem preparados, o fica comprometido."

Segundo ela, muitos casos evoluem para desgaste familiar intenso, incluindo conflitos e separações. Por isso, orientar pais e responsáveis ​​é parte essencial do processo terapêutico.

Escola também enfrenta desafios

No ambiente escolar, o TOD pode se manifestar por meio de recusa em cumprir tarefas, dificuldades de convivência e comportamentos agressivos. Sem preparação adequada, os professores também enfrentam desgaste.

“A falta de informação ainda é um dos maiores desafios”, afirma o especialista. “Muitas vezes, o comportamento é interpretado de forma equivocada.”

Há luz no fim do túnel

Apesar das dificuldades, Emanoele reforça que é possível reduzir significativamente os impactos do transtorno.

"A luz no fim do túnel é o conhecimento. Quando uma família entende o que está acontecendo e aprende a agir, os resultados aparecem."

Ela destaca que, com suporte adequado, é possível melhorar o comportamento, fortalecer vínculos familiares e promover a inclusão social.

Uma mensagem para os pais

Para famílias que estão no início da jornada, a orientação é clara:

"Respire fundo, tenha calma e não se culpe. Existe caminho, existe tratamento e existe evolução."

Segundo o especialista, compreender limites, manter consistência e cuidar também da saúde emocional dos pais são passos fundamentais.

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