Amanda Julieta reclama a palavra que feriu para blindar mulheres negras
A escritora baiana Amanda Julieta lançou no último sábado (7 de março) seu novo livro de contos Monstruosa , no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador. A obra reconquista a palavra "monstruosa", usada historicamente para oprimir mulheres negras e que amam mulheres, transformando-a em símbolo de resistência e potência.
O evento ocorreu às 14h no Centro Histórico de Salvador, com distribuição gratuita de 100 exemplares e leituras de poemas. O Muncab, dedicado à preservação da memória afro-brasileira, foi palco simbólico ideal para uma obra que celebra identidades negras e queer.
O título Monstruosa surgiu logo no início do projeto, após os primeiros contos, guiando toda a construção narrativa. Ele também é nome de um conto central, onde o protagonista vê a palavra "monstruosa" tatuada em sua pele escura pela colonização, apropriando-se dela para criar algo novo.
As histórias retratam mulheres negras lésbicas e bissexuais em jornadas de sobrevivência, afeto e reinvenção, misturando prosa poética, fluxo de consciência e narrativas fragmentadas. O afeto entre mulheres é apresentado como “tecnologia de sobrevivência” contra violências institucionais, como feminicídio e lesbofobia, propondo a destruição do mundo opressor para um novo guiado pelo amor.
Amanda, jornalista, mestra e doutoranda em Literatura pela UFBA, observa o cotidiano para fabular: um conto nasce de uma babá na praia ( Pinho Sol ), outro de uma abordagem policial racista ( Chocolates ). Personagens complexas, como uma mulher de classe média que rouba por adrenalina, evitam estereótipos, formando uma "constelação" de perspectivas queer plenas, não apenas sofridas.
A linguagem fragmentada reflete o que cada voz quer dizer ao mundo, rompendo estruturas lineares tradicionais. No conto Gabriela , o luto é um "arquivo contra o apagamento", onde "esquecer é pior do que inventar", fabulando memórias ausentes.
Sua formação em jornalismo afia o olhar observador, misturando fato e ficção: "tudo é mentira, tudo é verdade", imbricado na realidade brasileira contemporânea. Como em seu livro anterior No rastro de Estela (2025), as narrativas recuperam silenciadas de mulheres negras lésbicas.
A sequência cria ressonância emocional, não linearidade, começando e terminando com "fim do mundo", como entregues à editora ParaLeLo13S.
Amanda deseja que o leitor sinta afeto positivo, refletindo que amar mulheres não é monstruoso, mas potência vital. O livro está disponível na Livraria Boto Cor-de-Rosa (livrariabotocorderosa.com.br), que envia para todo o Brasil, e nas livrarias de Salvador; siga @queridajulieta no Instagram para mais infos.









