Polilaminina: a ciência por trás da promessa contra a paralisia, a fase das pesquisas e os desafios da criadora

Substância desenvolvida na UFRJ apresenta resultados inéditos em lesões medulares e viralizou nas redes, mas cientistas pedem cautela
Descoberta por cientista carioca ganhou repercussão recente nas redes sociais, mas Anvisa autorizou apenas testes iniciais de segurança em humanos em janeiro de 2026
  • Da Mega
  • Atualizado: 23/02/2026, 12:51h

A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), viu o trabalho de quase três décadas transformar-se em um fenômeno nas redes sociais. Sem perfis na internet, ela se tornou o centro de uma comoção nacional após a divulgação dos resultados de sua pesquisa com a polilaminina, uma substância capaz de reconectar a medula espinhal e devolver movimentos a pacientes paraplégicos ou tetraplégicos.

A repercussão chegou ao ápice durante o Carnaval deste ano, quando a cientista de 59 anos foi apontada por internautas como "a mulher mais relevante do Brasil". No entanto, por trás dos vídeos virais de pacientes treinando musculação e da esperança gerada, há uma realidade complexa: a droga ainda não tem aprovação final para uso comercial, exige testes rigorosos e impõe um fardo emocional pesado à sua criadora.

Como a substância funciona?

A medula espinhal é a via de comunicação entre o cérebro e o corpo. Quando ela sofre uma lesão completa, os comandos param. O princípio da polilaminina é criar uma "ponte" biológica para reconectar esse caminho.

Em laboratório, a equipe produziu uma rede de proteínas (lamininas). "Como o axônio [parte do neurônio] cresce na vida real? Ele cresce em cima de uma pista de laminina. Quando tem uma lesão, não tem pista. Se a gente der a pista, ele volta a crescer. Não tem nenhuma genialidade nisso", explica Sampaio em entrevista ao programa Fantástico, simplificando o feito.

Os resultados em humanos têm sido promissores. Em um estudo acadêmico com oito pacientes com lesão completa, 75% recuperaram alguma função motora. A literatura médica aponta que, naturalmente, apenas 10% a 15% das pessoas atingem esse nível de recuperação sem medicamentos.

O fator tempo: a janela de 72 horas

Apesar do otimismo, há uma ressalva clínica fundamental: o tempo de aplicação. Para atingir a eficácia máxima, a polilaminina precisa ser injetada preferencialmente até três dias após o trauma. Após esse período, a medula forma uma cicatriz em volta dos axônios, dificultando a ação da droga.

O caso de maior sucesso ocorreu com o paciente Bruno, tratado menos de 24 horas após fraturar o pescoço em 2018. Classificado inicialmente sem qualquer movimento, hoje ele caminha de forma independente. Já o uso em pacientes com lesões crônicas (antigas) ainda é uma incógnita em humanos e vem sendo testado apenas em animais.

A realidade regulatória e a corrida judicial

Como o medicamento não possui aprovação final da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercialização, pacientes têm recorrido à judicialização para obter o chamado "uso compassivo" — quando a Justiça libera uma droga experimental para quem não tem outras alternativas médicas. Até o momento, 55 pessoas entraram com pedidos e 30 foram aprovados.

No entanto, a comunidade científica pede extrema cautela. A aplicação do remédio fora de estudos clínicos controlados envolve riscos desconhecidos. A prudência baseia-se em critérios rígidos:

  • Falta de revisão por pares: Os dados das melhoras ainda não passaram pela avaliação de cientistas independentes.

  • Ausência de grupo controle: Sem testes comparando a droga a um placebo, não é possível garantir estatisticamente que a melhora não foi natural.

O avanço oficial deu seu primeiro passo apenas em janeiro de 2026, quando a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico de Fase 1. O objetivo desta etapa não é provar a eficácia, mas sim a segurança. O teste será feito com apenas cinco pacientes que sofreram lesão há menos de 72 horas.

Patentes perdidas e o peso da esperança

O desenvolvimento da droga envolveu a UFRJ, a Faperj e o laboratório privado Cristália, que patenteou a fabricação nacional. Contudo, as patentes internacionais nos EUA, Europa e no âmbito mundial foram perdidas entre 2011 e 2014. Registros oficiais indicam que o abandono ocorreu devido à falta de pagamento de taxas de manutenção pela universidade, reflexo de cortes orçamentários na época.

Hoje, além da falta de centros de reabilitação adequados no país para acompanhar os pacientes que recebem a droga, o maior desafio de Tatiana Sampaio é a carga emocional. A cientista relata receber apelos diários de famílias desesperadas.

"Isso é muito pesado para mim, não tem um dia em que eu não tenha uma crise de choro. Se eu for um instrumento de Deus, eu aceito, mas não posso ser responsabilizada por isso", desabafa.

Se as três fases de testes clínicos da Anvisa forem bem-sucedidas, o laboratório projeta que a polilaminina possa estar disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) em até cinco anos. Para a pesquisadora, o desejo imediato é mais simples: "Eu queria muito me aposentar", revela, na esperança de que a ciência dê continuidade ao seu legado.

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