Além do cromossomo extra: Dra. Isabela Amaral revela os pilares para o desenvolvimento pleno na Síndrome de Down
Dra. Isabela ao lado do Dr. Zan Mustacci. Foto: Arquivo pessoal
A pediatria focada na Trissomia do 21 (T21) ganhou um novo fôlego com o trabalho da Dra. Isabel Amaral . Formada pela Santa Casa de São Paulo e especializada pelo renomado Dr. Zan Mustacchi, uma médica decidiu dedicar seu consultório e suas redes sociais exclusivamente ao acompanhamento de crianças com Síndrome de Down. Em entrevista ao programa Inclusão em Foco , Dra. Isabela desmistificou preconceitos e convidou um roteiro de esperança e ciência para as famílias.
O "Luto" do Filho Idealizado e o Acolhimento
Para muitos pais, o diagnóstico do T21 chega como um choque. Dra. Isabela reconhece que existe um processo de luto pela "criança idealizada" que não veio como esperado. Sua primeira recomendação é a autocompaixão.
"Não se pressione. Tenha tempo para digerir a notícia, tarefa e se acolha. O desconhecido traz medo, por isso, busque informações com profissionais atualizados e não apenas no Google", orienta o pediatra.
Ela enfatiza a importância de se conectar com outros pais que já "conhecem o caminho das pedras" e pode oferecer o suporte emocional que amigos e familiares, mesmo com boa intenção, às vezes não oferecem dar por desconhecimento.
Prevenção: O Diferencial no Consultório Especializado
Diferente da pediatria geral, o olhar para o T21 precisa ser antecipatório. Dra. Isabela explica que certas condições são mais prevalentes, como hipotonia (musculatura mais fraca), questões de tireoide, cardiopatias e alergias alimentares (como a APLV).
No entanto, a médica traz uma perspectiva otimista e pouco divulgada: o lado positivo da genética T21 .
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Menor incidência de tumores sólidos: Pessoas com T21 têm menos chances de desenvolver a maioria dos tipos de câncer.
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Saúde Cardiovascular: Apresenta menor propensão à hipertensão arterial.
“Ter maior chance de ter algo não significa que uma criança terá. O objetivo de saber as incidências é diagnosticar cedo ou prevenir para que uma doença sequer ocorra”, afirma.
A Tríade do Desenvolvimento e o Poder do Afeto
Para garantir que a criança atinja seu potencial máximo, a Dra. Isabela recomenda o início precoce da "tríade básica" de estímulos: Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (TO) .
Mas ela faz um alerta importante: encher a agenda da criança de terapias não substitui o vínculo familiar. "O afeto tem benefício comprovado no desenvolvimento. Uma criança com menos terapias, mas com tempo de qualidade para brincar e passear com a família, pode desenvolver-se muito mais."
Checklist dos Primeiros Passos:
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Exames Iniciais: Ecocardiograma, ultrassom de quadril, avaliação audiológica completa e exames de sangue precoce para tireoide.
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Vacinação: Seguir o calendário particular (mais completo). Atenção especial à vacina contra febre amarela em crianças que passaram por cirurgias cardíacas (retiradas do timo).
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Atividades Extras: Natação, musicoterapia e ecoterapia são excelentes para ampliar o repertório neurossensorial.
Inclusão Real: Escola Regular e Fim da Superproteção
Um dos pontos mais enfáticos da entrevista foi sobre a autonomia. Dra. Isabela defende que a superproteção é, na verdade, uma forma de preconceito. "Tratar o filho com T21 de forma diferente do irmão típico limita o seu crescimento. Precisamos acreditar que eles são capazes e deixá-los voar."
A médica é categórica sobre a educação: escolas especiais não beneficiam o aluno com T21 . A integração em escolas regulares, com material adaptado e mediadores quando necessário, é o que garante a inclusão social e o desenvolvimento intelectual.
A expectativa de vida para pessoas com Síndrome de Down saltou de 25 para cerca de 65 anos nas últimas décadas. Segundo a Dra. Isabela, o foco atual da medicina não é apenas “ganhar tempo”, mas garantir um envelhecimento ativo .
"Eles podem fazer tudo: faculdade, dirigir, casar, trabalhar. Com disciplinas precoces para minimizar o estresse oxidativo e uma rede de apoio sólida, estamos fornecendo adultos independentes e inseridos na sociedade", finaliza.









