A espetacularização dos fatos e o esvaziamento da verdade
Estava na fila do caixa de um supermercado, em um início de noite comum, quando a rotina foi rompida por uma cliente visivelmente exaltada. Ela dizia que acabara de acontecer um assalto em um estabelecimento próximo, que houve tiroteio, morte, correria. Em poucos segundos, a fila inteira já comentava o suposto crime. Surgiram versões, culpados, motivações. Ninguém sabia ao certo o que tinha ocorrido, mas todos pareciam ter certeza de algo.
O que mais chamou atenção não foi o tom alarmista, nem a rapidez com que julgamentos foram feitos, mas a frase dita por uma jovem, quase com naturalidade: “Agora é só esperar as imagens nas redes.”
Ali, de forma simples e perturbadora, estava resumida uma lógica cada vez mais dominante: a verdade não será estabelecida pela apuração responsável dos fatos, mas pelo espetáculo — muitas vezes deprimente — que circula nas redes sociais.
Vivemos uma era em que acontecimentos complexos são reduzidos a vídeos curtos, imagens fragmentadas, ângulos de câmeras de segurança e registros feitos sem qualquer critério ético. A informação deixa de ser resultado de investigação, contextualização e checagem, para se transformar em produto bruto, imediato e monetizável. O que importa não é compreender o que aconteceu, mas ser o primeiro a mostrar — ainda que de forma vulgar, despreparada e completamente desconectada da realidade.
Sob o pretexto de “informar”, multiplicam-se perfis que exibem imagens de acidentes, crimes e mortes, muitas vezes sem autorização, sem respeito às vítimas e às famílias, sem qualquer cuidado em ocultar rostos, placas, crianças ou cenas de extrema violência. Câmeras de segurança de empresas e residências, que deveriam servir à proteção patrimonial e à investigação formal, passam a ser usadas como matéria-prima para o sensacionalismo digital.
É inevitável a pergunta: essas imagens foram liberadas para esse fim? Houve consentimento? Houve análise do impacto social e humano dessa exposição?
O contraste é evidente. Quando um veículo de comunicação precisa de imagens para um fim lícito, jornalístico ou investigativo, existe um caminho legal, uma burocracia judicial, critérios claros. Já nas redes, os mesmos registros viralizam instantaneamente, sem filtro, sem contexto e sem responsabilização. O algoritmo recompensa o choque, a violência e o medo. A dignidade humana, nesse processo, é frequentemente descartada.
Mas estamos, de fato, falando de informação? Ou apenas de estímulos visuais que alimentam indignação superficial e cliques? Quem consome esse tipo de conteúdo procura, antes de compartilhar, uma fonte confiável, um site de notícias de credibilidade, uma versão oficial? Ou a imagem, por si só, já é tomada como verdade absoluta, ainda que represente apenas um fragmento — muitas vezes enganoso — da realidade?
Essa lógica não é inofensiva. Ela mata.
O Brasil conhece bem as consequências trágicas da desinformação. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no Guarujá, em São Paulo, quando uma mulher inocente foi linchada após ser falsamente acusada, nas redes sociais, de praticar crimes que jamais cometeu. A mentira se espalhou mais rápido que qualquer apuração. A violência veio antes da verdade. O desfecho foi irreversível. O Estado brasileiro, inclusive, reconheceu a gravidade do episódio ao retratá-lo em campanhas oficiais de combate às fake news, como forma de alerta à sociedade.
Casos como esse escancaram uma questão urgente: alguém pode — e deve — ser responsabilizado por divulgações inadequadas, falsas ou incompletas que resultam em danos irreparáveis? Quem lucra com esse tipo de conteúdo assume alguma responsabilidade sobre as consequências? Ou seguimos normalizando a ideia de que tudo pode ser exposto, desde que gere engajamento?
A espetacularização dos fatos não apenas distorce a realidade; ela molda comportamentos, reforça preconceitos, incentiva julgamentos sumários e enfraquece o pensamento crítico. Ao substituir a leitura, a reflexão e o estudo por imagens chocantes e narrativas rasas, corremos o risco de formar gerações mais reativas do que conscientes, mais influenciáveis do que informadas.
Até que ponto vamos chegar? Quando a sociedade vai, de fato, abrir os olhos para a gravidade do que está acontecendo? O impacto desse modelo de “informação” não se limita ao presente — ele já projeta sombras sobre o futuro.
Talvez as próximas gerações se perguntem como chegamos aqui. E talvez sejamos lembrados como a geração que, em vez de buscar compreender, preferiu apenas assistir; que, em vez de pensar, escolheu compartilhar; que, em vez de apurar, se deixou conduzir pelo espetáculo.
Uma lembrança triste, lamentável — e, sobretudo, evitável.










