Ponto de vista: O fim do Minc e o futuro da cultura no Brasil – Por I. Malforea*
Não estou lá muito preocupado com o fim do Minc. A coisa nunca foi um mar de rosas, nem passará a ser agora. Eu não deixarei de ser o artista batalhador, esperançoso e que produz conteúdo, como sempre fui. Com ou sem ajuda do Estado, seguirei em frente. Pra ser sincero, eu diminuiria ainda mais o número de ministérios. É tudo uma questão de "querer" fazer a coisa funcionar. Com isso, basta juntar a equipe certa e trabalhar de fato.
Notícias - 13/05/2016
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MINC

Vejo muitas manifestações contra e a favor da extinção do MINC por Michel Temer. Sou artista, minha formação acadêmica em história foi bombardeada de ideologia esquerdista, onde o Estado deveria tomar conta de praticamente tudo, se inflar mais e mais. E é o que vejo hoje: muita gente da minha época de faculdade hoje trabalha para o Estado de alguma forma. Depois, seguindo esse caminho e tentando passar em concurso público, me deparei com a ideologia liberal, oposta, onde o Estado mínimo é que é a visão do paraíso. Afinal, de qual segmento eu deveria fazer parte?

Não preciso repetir aqui aquela velha história de que o Brasil sempre teve essa cultura de “pendurar” no Estado, historicamente patrimonialista, onde a coisa pública “não é minha quando sou um vândalo”, mas “é minha quando me interessa”. As pessoas gostam de se sentir donas dos seus cargos, das coisas do seu gabinete e tudo o que mais os cerca quando experimentam uma dose do poder estatal, que teoricamente “emana do povo”, citando a Constituição Federal. No imaginário médio do Brasileiro, o ideal de trabalho é ser concursado, ter estabilidade e um emprego sossegado e de boa remuneração. Já em países com educação eficaz, a ideia de empreendedorismo é bem mais presente: é melhor ser dono do próprio negócio e ser seu próprio chefe. Criar você mesmo sua jornada de trabalho. O próprio sistema brasileiro dificulta o empreendedorismo: ser pequeno empresário no Brasil é árduo. Eu sou um músico independente, Microempreendedor Individual e, mesmo com as vantagens de ser um, sofro com as dificuldades do próprio mercado. Steve Jobs aqui seria provavelmente apenas um cara que lutou e morreu na praia.

Não é novidade que nossos representantes não nos representam: pensam na máquina do Estado de forma patrimonialista e pensam que são donos do país, como era nas monarquias. “É tudo meu, inclusive o direito de ter luxos”. Não se economiza, e se desperdiça com vontade. Enquanto isso o povo brasileiro trabalha como burro de carga e não obtém de volta o “investimento” pago sob a forma de impostos e tributos. Sendo assim, é óbvio que o Estado brasileiro precisa sim ser enxugado. É como passar um desfragmentador no computador: há muito espaço desperdiçado, portanto muita energia, tempo e dinheiro. Dinheiro público! Meu e seu!

Pensando nisso, há um tempo, pensei justamente numa fusão do Minc com o MEC. São áreas extremamente afins e, como educador por formação, não consigo enxergar a cultura separada da educação. A cultura é nossa alma. A educação é nosso oxigênio. Nem vou entrar no mérito dos outros ministérios, secretarias e a enorme quantidade de partidos políticos oficiais em nosso país que, já sabemos, passam longe do pensamento ideológico. Existem apenas para buscar poder. Criam-se novos quando os membros dos antigos brigam entre si a ponto de não se achar lugar mais para ficar.

Não tenho conhecimento aprofundado sobre o MINC, já usei a Lei Rouanet duas vezes, mas sei que a cultura brasileira, assim como a educação, saúde, segurança pública, estrutura, mobilidade e comunicação são extremamente sucateados. É realmente pesado para nós, cidadãos, trabalhar quase cinco meses por ano para, primeiro, sustentarmos os luxos dos políticos e grandes empresários, para que, com o que sobrar, eles gastem com todas essas necessidades básicas da nação. Somos apenas os velhos súditos da monarquia. O território é “as terras do rei”, não nossas. Idem para tudo o que está nele…

Então, e o MINC? Bem, vi comentários os abaixo, no Twitter:

Essas pessoas que reclamam do fechamento do MinC nunca pagaram ingresso caro no teatro financiado pelo governo e ainda era uma porcaria.
— Daniel Faleiro (@deniel_fs) 13 de maio de 2016

Choradeira… acabou a mamata, vão ter que trabalhar…Artistas e produtores reagem ao fim do MinC https://t.co/RbhZYsqSFn
— milena andrade (@milenarego) 13 de maio de 2016

@omachoalpha Acabou o MinC?!?! E agora?!? Vou sentir falta disso: pic.twitter.com/m2u7ylrDoL
— Thiago Caetano (@Thiago__Caetano) 13 de maio de 2016

@_davisalgueiro MinC era o maior cabide de empregos do país!!!!
— Tucano (@CancerJack) 13 de maio de 2016

E agora, como viveremos sem gordos pelados tomando banho de dendê em público? Volta MinC ? pic.twitter.com/Ajl1uPnCr3
— Caroline Silva (@rolzinha_) 13 de maio de 2016

O descrédito, não só no ministério, mas em toda a máquina do Estado é evidente, por parte da população geral. Tudo bem, temos aquela parte da ignorância sobre a Lei Rouanet, que vemos em vários textos, podcasts, vídeos internet afora. Sendo artista, aparentemente o caminho natural seria eu defender o Minc com unhas e dentes e condenar quem se opõe. Não é bem por aí. Eu olho com gigantesca desconfiança artistas atrelados a políticos. Não preciso nem citar nomes. Para mim, lugar de artista é em PALCO, e não em PALANQUE. Devo ter em mente que o povo considera o Minc um “cabide de empregos”, temos artistas que são atrelados aos partidos que estavam no poder, e devemos lembrar, no poder por tempo suficiente para começar a pensar a estrutura do estado como sua. Como “real (no sentido monárquico patrimonialista)”, e não como “do povo, apenas utilizada por mim enquanto estou aqui”.

Existem artistas que, como eu, têm imensa dificuldade em conseguir apoio por parte da iniciativa privada. A Lei Rouanet se baseia, na prática, na capacidade do artista em gerar visibilidade à empresa patrocinadora, logo, entramos na velha discussão em que um artista do mainstream sempre será mais forte e carregará consigo a maior fatia do bolo, que é o limite anual de captação de recursos por isenção fiscal. Essa discussão não é nova. A coisa não funciona bem. Isso, só falando da Lei Rouanet. O Minc não era apenas ela. Mas o fato é: a cultura no Brasil é sucateada. Aliás, há algo que não o seja? Ah, os carrões oficiais dos parlamentares não são.

Antes de ser artista, sou cidadão. Tenho obrigação de pensar não apenas em meu próprio umbigo. Tenho a plena consciência de que a saúde vale mais que a cultura, mas que a educação está intimamente ligada com a saúde e a segurança, por exemplo. Tudo é atrelado. Eu quero enxugar o Estado, para que ele desperdice menos o meu dinheiro. Isso é cortar na própria carne visando o futuro. Mas e as pessoas que estão lá agora? Bom, elas têm obrigação de ser eficientes, e eu sou daqueles que perdeu totalmente a fé em políticos, seja de que partido for. Acho mesmo muito difícil que a situação melhore consideravelmente, mas isso JAMAIS será justificativa para dizer que “é melhor então deixar o poder na mão de quem estava. Pelo menos fez alguma coisa”. Não! O poder, quando passa muito tempo nas mãos de alguém, dá a impressão de propriedade. Volta aos tempos da monarquia absolutista. Sou a favor de que o poder deve ser uma “batata-quente”, que nunca fica muito tempo nas mãos de uma pessoa só. Os nossos carrascos devem ter, ao menos a sensação de que seu inimigo tomará seu lugar, caso viaje demais na maionese.

Portanto, não estou lá muito preocupado com o fim do Minc. A coisa nunca foi um mar de rosas, nem passará a ser agora. Eu não deixarei de ser o artista batalhador, esperançoso e que produz conteúdo, como sempre fui. Com ou sem ajuda do Estado, seguirei em frente. Pra ser sincero, eu diminuiria ainda mais o número de ministérios. É tudo uma questão de “querer” fazer a coisa funcionar. Com isso, basta juntar a equipe certa e trabalhar de fato. Sem essa vontade, nem se criarem os ministérios da Música, do Teatro, do Cinema, do Artesanato separados, a coisa funciona. Esse papo de que só com X ou Y o país pode melhorar, não funciona comigo. São todos pessoas, geralmente corruptas, e a única coisa que os difere é a bandeira. E já disse acima: as bandeiras não se diferem por ideologia, e sim por interesses de poder.

A mim, artista “peixe-pequeno”, resta observar, esperar e cobrar. É MEU dinheiro suado, fruto da minha arte, que faz toda essa máquina funcionar, junto ao SEU dinheiro suado, vindo da atividade que você exerce. Vejo pontos em que concordo, tanto do lado dos que acham que o Minc é lugar de vagabundo, quanto dos que acham que é peça fundamental para que haja cultura no país. Não levanto nem a bandeira de um nem a de outro, porque a coisa é muito mais complexa do que aparenta. Há inúmeros interesses envolvidos, legítimos e honestos ou não. Há países desenvolvidos com seus ministérios específicos para a cultura, mas também há os que não possuem. Nossa democracia é jovem, mas já passou da hora de parar com essa cultura do terror. Gasta-se com isso, tempo, energia e, portanto, dinheiro, enquanto algo produtivo poderia ser feito. O desperdício é o principal sintoma do maior câncer da nossa nação: a corrupção. Mãos à obra!

placido-150x150*Plácido Mendes, ou I. Malforea, é conquistense, historiador não-praticante e vocalista da banda Distintivo Blue. Sabe “Faroeste” de cor, evita multidões, odeia falar ao telefone e fumaça de cigarro. Além de falar tudo sobre a banda, também faz um grande trabalho de divulgação do blues, sobretudo nacional, em www.distintivoblue.com

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