Ponto de Vista: Música de protesto: a arte grita “não!” Por I. Malforea
A canção de protesto sempre esteve presente na história do Brasil, mas teve seu auge durante os "anos de chumbo" da ditadura militar (1964-85), sobretudo após a publicação do AI-5 (1968-78), um golpe certeiro na liberdade de expressão no país.
Notícias - 4/04/2016
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Não serei aqui mais um a falar do que anda acontecendo com nosso país, criar teorias ou ditar pontos de vista. Nosso negócio é música, certo? E, ao contrário do que muita (muita!) gente pensa, ela não serve só para promover baladas ou alegrar o ambiente. Música é arte, e arte é nada mais que uma das formas humanas de expressão. Sendo assim, a música serve sim para animar baladas, mas também serve para ficar triste, relaxado, estressado, falar de coisas bonitas ou o contrário… Dizer “sim” e dizer “não”.

A canção de protesto sempre esteve presente na história do Brasil, mas teve seu auge durante os “anos de chumbo” da ditadura militar (1964-85), sobretudo após a publicação do AI-5 (1968-78), um golpe certeiro na liberdade de expressão no país. Daí surgiu uma infinidade de canções de denúncia e insatisfação, que exigiam bastante dos compositores, dada a necessidade de “driblar” os censores e passar a mensagem adiante de forma disfarçada ou indireta. Há quem diga que as melhores canções brasileiras são dessa época. A dificuldade e a limitação têm seu lado positivo, então?

Apesar da “ditadura” do politicamente correto, aparentemente nunca se foi tão livre para se falar através da música, mas onde estão as canções de protesto ou de crítica? Muitos músicos encontraram sucesso através de contratos gordos com gravadoras e se renderam aos lugares-comuns e sentimentalismos que fazem muita gente ter ideias limitadas sobre o que é e para que serve a música. Mas e os artistas independentes? Por que seguem o mesmo modelo? Por que a regra ainda é escrever músicas de acasalamento ou de bebedeiras? Estamos, artistas e público, ficando mais e mais condicionados a agir e pensar como gado?

Pensando nisso, comecei a montar uma playlist de músicas de indignação que soem atuais e de artistas apenas brasileiros. Por enquanto não há muitas, porque é um trabalho lento de se lembrar das canções certas, mas a grande sacada é: vamos montar essa playlist juntos. É uma playlist colaborativa no Spotify. As regras são simples: como disse, deve conter apenas artistas brasileiros e deve soar atual, mesmo que seja antiga. As músicas devem expressar indignação com algo da nossa sociedade. Outra regra crucial: não repita artistas. Assim teremos mais chances de conhecer mais músicos, de forma mais objetiva. Caso surjam repetições, manterei a música inserida primeiro ou a que tenha mais a ver com a proposta. Inclusive, fique à vontade para sugerir trocas.

Que tal a ideia? Penso que precisamos de uma playlist menos “fofinha” para lembrar que estamos aqui por algum motivo que não apenas crescer e se reproduzir. Temos algo a construir, e esses caras já descobriram isso. Ouça no volume máximo:

Vale aqui acrescentar mais uma música que, infelizmente, não está no Spotify: “Chega”, de Gabriel o Pensador. Essa com certeza traduz o que muita gente pensa sobre nosso país:
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Plácido Mendes, ou I. Malforea

Plácido Mendes

*Plácido Mendes, ou I. Malforea, é conquistense, historiador não-praticante e vocalista da banda Distintivo Blue. Sabe “Faroeste” de cor, evita multidões, odeia falar ao telefone e fumaça de cigarro. Além de falar tudo sobre a banda, também faz um grande trabalho de divulgação do blues, sobretudo nacional, em www.distintivoblue.com

 

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