PONTO DE VISTA: Eu não sou apenas eu. Eu sou NÓS – Por Ígor Luz
Hoje, 28 de Junho, é celebrado o Dia do Orgulho Gay. E o jornalista Ígor Luz mostra nesse texto que, muito além de sair do armário, é preciso dar as mãos e fazer parte. É preciso lembrar que a luta vai muito além das experiências individuais. A cada homofobia sofrida no mundo, um pouco de cada gay fica ferido. Ele escreve por todos aqueles que ainda não podem escrever e que ainda vivem com medo e com vergonha
Notícias - 28/06/2017
+notícias

Por Ígor Luz

“… De todos os pecados mortais, São Tomás de Aquino considerava o orgulho como a rainha dos setes mortais… Mas o ódio não é pecado, segundo essa lista. Nem a vergonha. Eu tinha medo da parada porque desejava muito participar dela. Então, hoje, vou desfilar por aquela parte de mim que um dia sentiu medo demais de desfilar. E por todas as pessoas que não podem desfilar. Pessoas vivendo vidas como a que eu vivi. Hoje, desfilo para lembrar que não sou apenas eu. Também sou um nós. E nós desfilamos com orgulho. So go fuck yourself, Aquinas!”

Essa é uma parte do discurso de Nomi em um episódio de Sense8, que, assim como sua intérprete, Jamie Clayton, é transexual.

Quando eu ouvi esse discurso pela primeira vez em uma propaganda da Netflix, eu chorei copiosamente. E comecei a pensar em várias coisas tão erradas que passei pela minha vida. Repassei tantas histórias, tantos silêncios, tantos medos, tantos ódios, tantas vergonhas. E chorei. Chorei de molhar o rosto. A coisa bonita da arte é que ela vem para mexer com nossos incômodos.

Nesse texto, não vou falar sobre a minha fase dentro do armário. Eu percebi que a porta do armário é apenas a primeira de inúmeras portas que a gente tem que quebrar até chegar ao caminho do ORGULHO. É uma fase em que a gente acredita que se assumir gay significa perder todas as pessoas que a gente ama. E, na falsa sensação de proteção, a gente acaba vivendo uma vida mentirosa e infeliz. As pessoas que estão se escondendo (seja lá quais são seus motivos) já são punidas o suficiente. Elas têm que criar máscaras e facetas para o mundo e – palavra de quem já viveu isso – não existe nada pior.

Mas aí eu resolvi me assumir – para o espelho, os amigos e a família. Enchi o peito de coragem e fui falar com as pessoas que me importavam. Nessa época, eu namorava um cara há alguns meses, que a maioria já conhecia por ser meu “amigo”. No modo geral, a aceitação foi bem bacana e eu me senti completamente aliviado.

O que eu não sabia era que, apesar de ter quebrado a porta do armário, eu ainda estava vivendo na escuridão.

Eu não me orgulhava por ser gay. Eu me orgulhava por achar que era um gay diferente. Eu não tinha amigo gay e adorava a aprovação dos amigos héteros. Eu não fazia carinho em público e nem textões na internet. Ir em uma Parada Gay? Deus me livra! Eu fazia o coro dos bolsomitos dizendo o quanto aquilo era coisa de depravado. Eu nunca que me achava como os outros gays. Eu posso até ser gay, mas sou diferente. Eu tinha uma relação séria e comprometida. Sentar numa mesa com um afeminado? Nem pensar. O que meus amigos héteros iriam pensar? Não, não. Ir em bar GLS? Nem morto. Poderiam achar que eu estava me misturando.

Participar da luta? NÃO, MUITO OBRIGADO. Nunca sofri muito por ser gay, então não preciso disso.

Quando a voz de Nomi ecoou pelo notebook em meados de 2015, eu chorei copiosamente porque eu ainda era tão homofóbico. Eu ainda tinha tanta vergonha e preconceito. Eu chorei sem parar com nojo de mim mesmo porque eu nunca tinha conseguido me visualizar como NÓS. Eu me senti a pior das criaturas. Mas o choro lavou a minha alma e, daquele dia em diante, eu resolvi realmente sair da escuridão, levantar a bandeira e fazer o que pudesse pela luta.

Ígor Luz (jornalista)

Alguns amigos héteros acabaram se afastando, mas ganhei tanto amigo gay maravilhoso. Gente que entende minhas confusões e dúvidas. Uma galera que me ensinou como ser melhor nesse mundo e me ajudou a crescer como ser humano. Eu desfilei na Parada, com adesivo no peito e a alegria de participar de algo tão bonito. Eu comecei a pensar em eventos gays para que nossa galera tivesse um lugar para se sentir livre para beijar, andar de mão dadas, dançar coreografias. Eu comecei a fazer textões e mais textões por aí para tentar passar o que aprendi nesses anos. Eu comecei também espalhar o amor que tenho pelo meu namorado, postando declarações e fotos. Ainda não é um mundo perfeito em que a gente possa sair por aí de mãos dadas ou beijando na praia, mas é por isso que a luta não para e não pode parar. E é por isso que eu resolvi fazer parte.

Esses dias, minha mãe me pediu para não expor muito a minha vida porque muitas pessoas não são boas como eu penso que são. Outro dia, um amigo aconselhou a me preservar mais porque eu poderia perder clientes. Desculpa, mãe. Desculpa, amigo. Eu amo tanto vocês, mas por amor (e por medo de perder amor), eu já fiquei na escuridão por tempo demais.

E, desculpa, São Tomás de Aquino, mas hoje e todos os outros dias é DIA DE ORGULHO. Orgulho de ser gay, de amar colorido, de participar dessa corrente de amor. Orgulho de colocar a cara nas redes para pedir menos ódio. Orgulho de fazer parte dessa luta bonita que está acontecendo agora e que todos fazemos parte.

Hoje, escrevo para lembrar que não sou apenas eu. Também sou um NÓS. E nós mostramos a cara com orgulho.

So go fuck yourself, homofóbicos!

  • Facebook
  • Twitter